sábado, 24 de fevereiro de 2018

Associação de Defesa do Património Arouquense

Fundada em 29 de Setembro de 1980 e com sede na Ala Sul do Mosteiro, a ADPA - Associação de Defesa do Património Arouquense, vai a votos no próximo sábado, dia 24 de Fevereiro de 2018.
Talvez compreensivelmente, ainda vai havendo quem questione o que é e para que serve esta associação. Nada que se estranhe, no entanto. As associações de defesa do património, regra geral, são instituições relativamente desconhecidas da maioria dos cidadãos. O próprio conceito de defesa do património é, ele próprio, algo que se apresenta como um “corpo” estranho na vida quotidiana da grande maioria dos cidadãos. E, a não ser que alguma obra esbarre com alguma coisa que reputamos com valor histórico ou tenha em vista alterar elementos e/ou espaços que fazem parte da nossa identidade e memória pessoal e colectiva, não é coisa que nos preocupe.
Por outro lado, temos hoje por certa a ideia de que alguém tem a obrigação de se responsabilizar e de que podemos responsabilizar sempre alguém pela sua acção ou omissão no que ao património cultural diz respeito e, por isso, é mais fácil e cómodo desresponsabilizarmo-nos de preocupações dessa natureza. Isto, apesar de não podermos ignorar que o legislador Constitucional colocou na esfera jurídica de todos nós particulares responsabilidades sobre os bens culturais.
Com efeito, a Constituição co-responsabiliza todos os cidadãos, e nomeadamente os agentes culturais, pela preservação, defesa e valorização do património cultural português, e estabelece que todas as pessoas têm o direito à chamada «acção popular», uma acção judicial que pode ser usada para promover a prevenção, cessação ou perseguição judicial de infracções contra o património cultural. Este direito pode ser exercido individualmente ou através de associações de defesa do património. E isto leva-nos, em Arouca, à Associação de Defesa do Património Arouquense e, nomeadamente, às suas origens.
A entrar na década de oitenta do nosso século passado, a ideia de criação de uma associação deste género em Arouca já não era nova e tinha mais do que justificação, não só pela riqueza do património histórico existente no concelho, mas, principalmente, pelo estado em que o mesmo se encontrava ainda nessa altura. Remonta mesmo ao ano de 1963, - para não ir mais longe - uma deliberação da Câmara Municipal em nomear uma comissão com o encargo de promover e defender o património natural e artístico da região de Arouca.
Um certo dia deslocaram-se a Arouca alguns estudiosos da ADERAV – Associação para a Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro, de forma a analisar, em profundidade, o estado dos monumentos e dos motivos históricos do concelho. No final da visita, «que teve no Prof. Zeferino Brandão e no Dr. Filomeno Silva dois óptimos e esclarecidos guias», a ADERAV elencou uma lista de bens e monumentos carecidos de rápida intervenção pública, com vista à sua defesa e preservação. O título com que a notícia teve eco no Jornal de Noticias e no Jornal de Arouca foi «ADERAV propõe classificação da torre medieval de Arouca». Estávamos em Julho de 1980 e daqui até que se desse corpo à então denominada ADCA - Associação de Defesa da Cultura Arouquense foi um instantinho.
Zeferino Brandão e Filomeno Silva terão dado conhecimento das conclusões da ADERAV ao então presidente da Câmara, Prof. Joaquim Brandão de Almeida, e, muito provavelmente, proposto a criação de uma associação de defesa da cultura e património de Arouca. Não tardou muito, foi convocada uma reunião, que teve lugar no dia 28 de Agosto de 1980 na própria Câmara Municipal, estando representadas várias entidades e individualidades. Ficou então deliberado constituir-se uma associação de defesa da cultura arouquense que, em princípio, se denominaria «Associação para a Defesa do Património Cultural de Arouca» e cujos fins seriam a defesa e estudo de arqueologia, etnografia, usos e costumes, trajos, recolha de espólios ligados à história do concelho, etc..
Volvidos poucos dias estava já constituída a associação, que se propunha lutar pela defesa de uma extensa lista de bens patrimoniais, «levar as pessoas a associarem-se e a tomar consciência de todo um seu passado em vias de desaparecimento». Os principais rostos da associação, impulsionadores, fundadores e, agora, dirigentes, eram Filomeno Silva e Zeferino Brandão.
Uma das primeiras e principais grandes actividades da associação foi a bem sucedida e recebida colaboração nas exposições da Feira das Colheitas.
Em meados de 1982 a associação ainda não tinha sede e, como muitas outras entidades, públicas e privadas, deitava os olhos sobre o imenso edifício do extinto Convento que, segundo então se sustentava, poderia, sem quebra da sua autenticidade monumental, antes harmonizando-se com os objectivos da associação, albergar a sua sede. E com este fito, dirigiram à então Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais um apelo nesse sentido. Objectivo que se viria a concretizar quatro anos depois.
Aquando da cedência de parte do piso térreo e primeiro andar da Ala Sul do extinto Convento, precisamente os espaços servidos pela escadaria monumental, logo se disse que tal cedência abria perspectivas para a divulgação da cultura em terras de Arouca. Seria, pois, altura de se exigir mais à associação, como então também se referiu, em artigo publicado no Jornal de Arouca, em 21 de Fevereiro de 1986.
As novas instalações da ADCA foram inauguradas no dia 8 de Abril de 1986, com uma exposição do “Livro que directa ou indirectamente fala de Arouca”. Os que então ali acorreram visitar as novas instalações e exposição ficaram bem impressionados com o que viram, reportando-se à já relativa abundância de material bibliográfico, mas sobretudo pela certeza de que algo de válido estava ali a surgir no domínio da defesa do património cultural de Arouca.
Nesse ano, os arouquenses puderam experimentar a nova vida daquela Ala do extinto Convento. A Associação Recreativa, Desportiva e Cultural de Arouca (ARDA), ainda mal se havia constituído já ali realizava uma exposição de pintura em parceria com a ADCA. Logo a seguir, uma outra, do consagrado pintor Alberto Hébil, desta feita promovida pela ADCA. O presidente da Direcção era Filomeno Silva, mas, normalmente, Zeferino Brandão é que falava em nome da associação.
Em Junho de 1987, a ADCA inaugura a exposição de fotografia «Longe da Terra, cá pela Serra…», de Pereira de Sousa, que deu origem ao livro com o mesmo título, com prefácio de Filomeno Silva, e logo depois uma exposição de pintura do artista Fernando Martins.
Por despacho de 3 de Novembro de 1993 é reconhecida e, por ofício de 29 de Março de 2000, reconfirmada, como Instituição de Utilidade Publica e, em Assembleia Geral realizada a 13 de Fevereiro de 1999, reformula o seu objecto social para «Defesa, valorização e divulgação do património natural e construído. Educação, elaboração e participação em projectos de recuperação ambiental. Conservação da Natureza. Execução e edição de publicações, estudos, recolhas e inventários, com características históricas e ambientais», adaptando-se assim ao estatuto de Organização Não Governamental do Ambiente – ONGA.
Enfim… estes alguns passos e aspectos sobre a origem e primeiros vinte anos da Associação de Defesa do Património Arouquense. Anos em que a própria autarquia se alheou de iniciativas concretas nestes domínios.
A ADPA prossegue hoje, ainda que muito discretamente, o cumprimento do seu objecto social, através da exibição de mostras fotográficas, acções de educação ambiental, recolha de documentos e jornais da região, intervém junto das entidades competentes alertando-as para acções ou atitudes contra o património e o ambiente, leva a efeito acções de sensibilização, com os mais novos, procurando uma forma de educação diferente para a vida e para as coisas, junto dos estabelecimentos de ensino com os quais estabelece protocolos, promove acções de sensibilização através de palestras e conferencias, promove exposições versando as mais diversas áreas, mas com predomínio para os valores e riquezas locais, e colabora com diversas entidades e instituições nomeadamente com Ecotecas com exposições e material destinado aos mais novos.
Possui hoje um considerável e valioso espólio jornalístico de todos os títulos que foram publicados em Arouca e que disponibiliza para consulta, em alguns casos sob apertadas regras, atendendo à sua raridade. Possui ainda um acervo documental diversificado constituído por documentos públicos e particulares que recolheu em diversas casas senhoriais da região, e que a não serem recolhidos e tratados, tal como aconteceu, provavelmente hoje já teriam desaparecido. Especial reconhecimento deste trabalho que vem sendo realizado, ainda da especial sensibilidade pela salvaguarda e valorização deste património, tem sido aquele que muitas casas e famílias têm manifestado com doações de jornais, livros e documentos à associação.
Possui ainda uma colecção de exemplares geológicos, composta por uma variedade diversificada de materiais e fenómenos líticos da região e uma assinalável colecção de peças, objectos e alfaias agrícolas e etnográficas.
A par de toda essa recolha, desenvolve uma considerável actividade editorial, cujos títulos focam áreas que vão desde história, linguística, etnologia, etnografia e geologia, e que constitui uma das grandes áreas de intervenção da Associação que já dispõe de um número considerável de títulos editados, constituído também um apoio fundamental a todos quantos desenvolvem trabalhos nestas áreas e, para isso, recorrem ao apoio da associação.
Trata-se, com efeito, se mais não for pelo fundo de documentos e acervo de objectos, peças e alfaias, bem como da hemeroteca e biblioteca que possui, de uma das mais importantes associações do concelho de Arouca. 
   Por isso, foi com grande gosto e enorme honra que, nos últimos dez anos, nela desempenhei as funções de presidente da Mesa da Assembleia Geral, tendo sempre procurado contribuir para a defesa dos interesses dos associados, mas, acima de tudo, para o bom nome e imagem da associação.

Arouca, 24 de Fevereiro de 2018

António Jorge Brandão de Pinho

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